NIRAM ART NUMERO 9


A CIBERCULTURA, DAN CARAGEA

Após uma entrada algo tímida, em que o computador foi encarado como uma sedutora «máquina de escrever e calcular», munida de algumas funcionalidades lúdicas até então dispersas, e a Internet não passava de uma ignorável lixeira de vaidades para todos os potenciais «escritores» em busca de voz, amigos e protagonismo, estamos a viver já uma segunda fase, de plena edificação da cidade global, desta vez com sentido e responsabilidade cívica bastante notáveis. As entidades culturais, individuais ou colectivas, encontram-se hoje em pleno processo de elaboração e difusão de dados, documentos e serviços on-line, participando entusiasticamente à criação da nova Babel. É louvável este esforço constante de milhões de actores socioculturais no sentido de proporcionar serviços informativos de qualidade. Melhores conteúdos e melhor apresentação, hiperligações e navegações sofisticadas encontram-se a todo o passo neste labirinto ubíquo por onde estamos convidados a passear diariamente. Num espaço em que ainda há distâncias humanamente perceptíveis, o tempo revela-se altamente comprimido em odisseias cada vez mais espectaculares.
    Contudo, as viagens proveitosas são reservadas apenas aos iniciados. Quem são eles? Em princípio, os mesmos de sempre, talvez agora mais vorazes no banquete informativo. Apesar de muitos e sempre desactualizados manuais, de grandes directórios contendo selecções de sítios, de ligações quase constantemente presentes nas boas páginas, que remetem a outras e outras fontes, a navegação continua, para a maioria, profanamente aleatória. Os chamados portais raramente satisfazem as exigências mais elitistas, não há gurus em viagens adaptadas a necessidades especiais, as páginas de síntese não podem ser chamadas nos primeiros momentos, mesmo quando existem, faltam ainda filtros para separar o trigo do joio, etc., etc.
    Apesar de concordarmos plenamente que esta questão é naturalmente subjectiva, é impossível não tentar imaginar soluções quando sobretudo deixamos de ver o geral, a massa, e começamos a pensar nas motivações, necessidades, e possibilidades reais de cada um. Há todo um trabalho explicitamente pedagógico que deverá caracterizar a esperada terceira fase, de teor crítico, na evolução deste mundo virtual. É óbvio que, ao menos em função da idade, formação escolar, nível cultural e centros de interesse, o mundo não se estrutura da mesma forma. Nenhum domínio do conhecimento pode ser considerado uma realidade plana e de fácil exploração. A tarefa mais premente na Internet, se é que ela foi tomada em consideração, deverá contemplar a reprodução virtual das formas que se encontram bem definidas no mundo real, pela separação cada vez mais acentuada do saber científico e cultural em comparação com as formas indiferenciadas de divulgação informativa. Esta separação entre informação, tal como ela é concebida a nível gregário ou em jornalismo (sem ofensa), e conhecimento, tal como este se apresenta nas formas da chamada «literatura de especialidade» é mais que desejável. Por isso discordo da frase quase sem dono, mas presente na escrita de um Manuel Castells por exemplo, que fala na transformação da informação em conhecimento. Simplesmente não entendo este lema. Como se pode transformar um discurso informativo num discurso cognitivo? Pessoalmente não tenho resposta. O contrário é, sem dúvida, mais que possível. Para que uma informação se aprenda, é imprescindível a existência de um conhecimento prévio que permita captá-la e relacioná-la. Querem experimentar? Leiam o texto abaixo apresentado quantas vezes quiserem e tentem reproduzi-lo um dia depois. Onde está aqui a notícia?
«Os Latinos, diz Dumézil [1966, trad. it. p. 128], não tiveram um termo para designar a religião. Religio e caerimonia não cobrem o campo dos factos religiosos, ao passo que a expressão mais genérica de colere deos, próxima do nosso conceito de religião, recorre ao uso banal de uma forma linguística (colere) que não tem qualquer valor técnico. A palavra religio, que acabou por designar o conjunto das relações do homem com o não-visível, designou originariamente o escrúpulo, não o arrebatamento nem qualquer forma de acção. Ela representa um deter-se, um hesitar inquieto perante uma manifestação que precisa de ser contemplada, para a ela nos adaptarmos [ibid., p. 51]. É, portanto, o escrúpulo religioso, ou antes, a superstição. Muito mais do que isso não dizem as antigas etimologias, que apresentam como derivando de relegere ou de religare (étimo de relegere em Cícero [De natura deorum, II, 28, 72] “Qui autem omnia quae ad cultum deorum pertinerent diligenter retractarent et tamquam relegerent, sunt dicti religiosi”; étimo de religare em Lactâncio [Divinae Instituciones in Migne, Patrologia latina, VI, col. 536]: “Hoc vinculo pietatis abstricti deo et religati sumus, unde ipsa religio nomen accepit”; cf. Sérvio [Ad Aeneida, VIII, 349] e a conclusão de Ernout e Meillet [1967, sub “Religio”], segundo a qual o termo é formado por um prefixo re- e por um segundo elemento, -ligio ou -lligio, absolutamente obscuro).», Enciclopédia Einaudi, Imprensa Nacional ― Casa da Moeda, 1994, vol. 12, p. 108.
    No esforço de adquirir informação e conhecimento, muitos poderão perguntar-se: mas existe alguma possibilidade de separar os textos simples, ingénuos ou mesmo plágios, que falam de Freud, dos textos considerados contribuições científicas, ou dos textos escritos pelo analista e acessíveis agora electronicamente em original ou em traduções? A resposta é, muito provavelmente, sim. Tal filtragem é, sem margem de dúvida, polémica e sempre discutível. Admitimos até misturas pouco aceitáveis nos resultados obtidos nas pesquisas. Mas, por mais questionável que seja esta proposta em termos axiológicos, não podemos ignorar que ela oferece a possibilidade de filtrar, o que para o homem moderno, quase desesperadamente afogado no oceano textual é a sua bem-vinda tábua de salvação. Ninguém pode ler tudo, ninguém pode ter a ilusão de ter acesso à melhor informação, mas que ao menos pesque alguns textos que para ele façam sentido no mais curto espaço de tempo possível, isto não é promessa fútil nem fantasiosa. Obter resultados fiáveis e não uma amálgama de devoluções abundantes ao escrever simplesmente a palavra Freud, é algo hoje perfeitamente possível utilizando motores de indexação semântica, como Tropes Zoom, por exemplo.
    É nossa tarefa situar cada criação humana num quadro mais amplo, hierarquizando e solucionando correctamente as nossas necessidades e esperanças. T. S. Eliot escreveu, há mais de meio século, dois versos premonitórios: «Onde se foi a sabedoria que perdemos no conhecimento? Onde se foi o conhecimento que perdemos na informação?».

 

Dan Caragea

Critico de arte 



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